Neste tempo que nos tocou viver, os membros do IEAC-GO partilham experiências e reflexões.
Fique connosco!

# 1

Religiões, vírus e responsabilidade de todos

Passou pouco mais de um mês sobre uma tertúlia em que se falou de media e religião, comunidade e fé, no arranque de um novo ano civil. Ouvíamos já os primeiros relatos de um novo vírus e as implicações da sua propagação na longínqua China. As preocupações andavam ainda perdidas entre as consequências de um livro que colocava “Papa” contra Papa, o papel da religião na moldura cultural e social ou as novas formas de comunicar e de estar.

Na assistência havia sobretudo gente religiosa, mas também ateus e agnósticos, empenhados, todos, em fazer pontes e estreitar caminhos de convivência onde as circunstâncias aparentam dificuldades de encontro.

Pelo meio ouviam-se, de diferentes sensibilidades, rasgos de lucidez humana, daquela ética que subjaz à existência e releva o essencial sobre o (pre)conceito, a essência sobre a(s) forma(s). “O amor”, disse alguém, “não tem fronteiras” e “de Deus nunca ninguém ouviu dizer de que religião é, ou que tem uma religião”. Reclamava-se aquele lugar sem lugar, aquela utopia comum em construção, transformada em ideia para se fazer ética do cuidado e respeito pelo próximo.

Recuperando a philia aristotélica, o Papa Francisco rediz este “amor” como sendo também cívico e político, a capacidade de o humano ser em relação, valorizando-se coletivamente para se transcender individualmente e na corresponsabilidade.

Ninguém, naquela tertúlia, imaginaria que tais reflexões fizessem tanto sentido poucas semanas depois.

Testemunhamos mais um apelo da história, uma contingência da existência, um suspiro da Terra. Vivemos momentos que enquadrávamos em ficções mais ou menos legitimadas pela previsibilidade científica.

Reagiremos a este momento, expectante, porque de ansiedade apocalítica e de incerteza social se alimenta também este tempo. E é na medida da resposta que diremos quem somos e como evoluímos desde o último suspiro, da última contingência, do último apelo.

O sentimento religioso também se sintoniza com as aparentes inevitabilidades. Em contexto judaico-cristão e islâmico desenha-se escatologicamente. Ensombrado pelo fantasma de Dante, o caminho passa pelo mitológico caos, que remete para a matéria primordial, como se a ordem das coisas implicasse a coexistência com uma desordem originária e simultaneamente restauradora.

A decisão de as igrejas, mesquitas e outros templos encerrarem ao culto é um sinal racionalmente extraordinário. Fora do contexto, será difícil entender o significado tremendo que esta decisão tem na vida dos crentes. A oração comunitária – que no catolicismo tem a dimensão sacramental da eucaristia, uma ação de graças com a presença mística de Deus –, é central na vivência de fé. Retirá-la do quotidiano dos crentes é, por isso, de uma extrema audácia e coragem, ainda mais no caso cristão e católico, atravessando praticamente todo o tempo quaresmal até à Páscoa.

É, simultaneamente, uma simbólica epifania. Se, em contexto de fé, se crê num Deus que se fez homem, é na salvaguarda da vida humana, em particular e no todo, que Ele se revela, em “amor” político e cívico, na opção corresponsável pelo bem-comum.

Condicionados por uma experiência exacerbadamente emocional ou agrilhoados em ritualísticos modos de compreensão do fenómeno religioso, sem os quais não se entendem, alguns crentes podem não perceber, e recusam, esta decisão. Não terão ainda percebido que esse fascinante inexplicável, que se diz com as ferramentas da fé e da espiritualidade, ganha contornos através da experiência humana em interdependência e corresponsabilidade.

O calendário gravará, para memória futura, um antes e um depois deste momento. O músculo resiliente determinará a sua dimensão, mas as estruturas religiosas mostram, na circunstância, estar do lado certo desta história.

Joaquim Franco | Associado e Vogal da Direção do IEAC-GO

# 2

Saudações a todos em casa, desejando que cada um de vós esteja bem e de boa saúde!

Vivemos um tempo especial, exigente, desafiante. Convivemos com situações de tristeza e de sofrimento, de falta de paz, de tranquilidade, de perda de alguém… e por todas estas situações somos profundamente tocados. É uma realidade nova, que assola toda a humanidade. Somos um na mesma luta. Lutamos pela vida; vida que elemento tão pequeno e invisível ameaçou e continua a ameaçar. Todos nós, mesmo todos, novos e idosos de todas as raças, crenças e condição social, aprendemos uma nova palavra que significa ameaça, risco de vida: Coronavírus. Realidade nova, que nos faz experimentar mais do que nunca o estarmos todos juntos no mesmo coração, na mesma oração, na mesma lembrança, apesar de não nos vermos.

O mundo precisa de MAIS, como nos diz a LAUDATO SI’, n.º 13: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.”

Não podemos desanimar. Não podemos paralisar nas nossas ações e pensamento. Temos de ser corajosos, solidários, obreiros na serenidade, na escuta, na contemplação e na ação. Temos de ser mais atrevidos a salvaguardar um BEM MAIOR: A VIDA. É um tempo de esperança que deve alimentar-se com tenacidade, em cada segundo dos nossos dias. A história da humanidade recorda-nos que somos capazes de o fazer; foi em tantos momentos difíceis da vida que vimos homens e mulheres e crianças a superarem-se de forma notável! Simplesmente, porque acreditaram. Isso nos recorda o Irmão Roger, da Comunidade de Taizé: “Se a confiança do coração estivesse no início de tudo, irias longe, muito longe.”

A Saudade aperta! No tempo maior de todo o cristão que chega, a Páscoa, o coração parece ficar mais angusto; o vazio que impera na nossa Igreja; o silêncio cala as nossas celebrações, os nossos encontros, as nossas reuniões, a nossa catequese, os nossos cânticos… que falta faz à nossa alma! Mas, esta saudade é sempre um chamamento à presença de Deus. Percorrendo o caminho espiritual, nesta saudade, enchamos o coração dessa presença, cantemos cânticos ao Senhor, mesmo em “terra diferente”. Excelente altura para meditar no salmo 137.

Neste V domingo da Quaresma, S. Paulo desafia-nos a ser bússolas, a viver segundo a lei do espírito, como somos filhos amados de Deus que somos. Todo aquele que vive segundo o espírito vive uma relação de amor constante com Deus, norteando a sua vida para o Espírito do Ressuscitado; o Espírito que habita em nós. Valorizar, neste bussolar de amor, cada momento que nos é concedido, mesmo aquele com o qual não contamos, é estar no amor do Pai. Lembremo-nos de que cada momento é tempo oportuno de encontro com o Senhor, onde está a misericórdia e abundante redenção, como rezamos no salmo deste domingo.

O Evangelho de S. João fala-nos sobre a ressurreição de Lázaro. Vemos a amizade de Jesus, vemos como Ele Se emociona profundamente, como Ele fica triste. Jesus frequentava a casa de Betânia e era acolhido pelos seus amigos: Lázaro, Marta e Maria. Ao saber da morte do seu amigo, Jesus toma uma atitude desconcertante, de passividade, entendemos nós. Mas, os Planos de Deus não são os nossos. Jesus chega a Betânia, tarde demais, no entender de Marta, porque o seu irmão já tinha morrido; e “irresponsavelmente” no entender dos discípulos, pois Jesus teima ir para uma terra onde já O tinham tentado apedrejar, como lhe recordavam os discípulos. E em Betânia e no tempo certo, Jesus ressuscita Lázaro, ensinando-nos a ver e a entender que a morte não é a última palavra sobre o destino humano. A misericórdia de Deus não se confina ao nosso tempo. Marta, por seu lado, respondia a Jesus que acreditava nas Suas palavras, mas avançava a medo. Assim somos nós quando nos entristecemos. No combate entre a vida e morte, vence a vida: esta é a nossa Páscoa! Jesus é a Vida, por isso deu a própria vida pelos seus amigos. Ele está e estará sempre connosco, mesmo no vazio e no silêncio da vida, como às vezes sem fé e sem esperança nos sentimos. E estará em nós, quando a nossa hora chegar.

Que este tempo especial não seja apenas um tempo de estatísticas, mas tempo de esperança, de oração, de bênção, de dar graças…

Com Deus a vida não morre. No meio deste isolamento, sintamos que Ele vive em nós,

fica em casa connosco … permanece junto de nós, mesmo no cair da noite!

P. Nélio Tomás | Pároco de Alfragide e Associado do IEAC-GO

# 3

Como vamos dizer-nos?

A definição de uma inevitabilidade não concorre com o paradoxo da liberdade humana. Somos interdependentes e úteis, necessários e necessitados. Formados e formatados para sairmos de nós, sermos mais do que o imediato do instinto e da autopreservação, já desfocámos os contornos básicos da sobrevivência. No pêndulo da consciência, andamos entre a emoção e a razão – é aqui que se constrói o primado – e temos como adquiridos, neste vai e vem que nos define, valores civilizacionais que deviam tranquilizar. A situação é dramática? Sim, é! As estatísticas e as percentagens passam-nos ao lado quando somos confrontados com a mais inevitável das contingências: a finitude. O momento é expectante, porque de ansiedade apocalítica e de incerteza social se alimenta também este tempo comunicacional. Uma vítima mortal nos basta para assumirmos a proximidade impactante. Solta-se a ameaça do mitológico caos, que remete para a matéria primordial, como se a ordem das coisas implicasse a coexistência com uma desordem originária e simultaneamente restauradora. Mas sabemos, ou temos de compreender, que é na doação e na corresponsabilidade que podemos atenuar esse inevitável, assumindo a circunstância sem que esta nos paralise, sem dela ficarmos totalmente reféns.

O medo e a incerteza não deviam condicionar-nos. Se não controlamos tudo – na verdade, mesmo que pudéssemos não era aconselhável – é o imprevisível que por vezes nos tolda. Como no desporto competitivo, podemos prever e preparar a melhor performance técnica e tática, prevenindo-nos para a imprevisibilidade, mas esta está sempre lá, como sal e pimenta da própria competição.

Estes são dias para não ficarmos paralisados ou toldados. É a razão que nos fecha em casa. Não é o medo. Estamos racionalmente a reagir, como coletivo, perante uma adversidade inesperada, invisível e silenciosa, que nos atinge no âmago e nos faz prisioneiros por opção, literalmente. É certo que somos de e em relação, (des)construindo afetos, com os sentidos e com sentimentos, mas se nos tiram esta condição de ser, temos de continuar a ser, enquanto tiver de ser.

Na encíclica Laudato Sí, o papa Francisco recupera a philia aristotélica e realça o “amor cívico e político” como essência da nossa civilização, essa capacidade de o humano ser em relação, valorizando-se coletivamente para se transcender individualmente e na corresponsabilidade.

Testemunhamos mais um apelo da história, uma contingência da existência, um suspiro da Terra. Vivemos momentos que enquadrávamos em ficções mais ou menos legitimadas pela ciência e pelos mitos. E é na medida da resposta que diremos quem somos e como evoluímos desde o último suspiro, da última contingência, do último apelo.

À janela ou no terraço, a dois metros ou à distância de uma videochamada, proativos e atentos, teremos de acordar para outras dimensões da vida sem perdermos o foco da realidade. Sabemos que outros(as), como nós, travarão batalhas duras nos hospitais, nos lares de idosos… E sofreremos com eles(as).

Resta-nos a confiança nas autoridades e a disponibilidade para, na possibilidade aconselhada, sermos a rede resiliente, próxima e solidária, que faz a diferença. Se outra ação não nos for permitida, não nos esqueçamos, no isolamento, que só somos porque nos afirmamos em comunidade. Acredito que, sem emoção exacerbada, mas em consciência, será já um contributo.

Joaquim Franco | Jornalista, investigador, autor, associado e vogal da Direção do IEAC-GO

# 4

Parar, retemperar, avançar

É tempo de ficar em casa
De regressar à caverna de onde vimos.
É tempo de voltar ao lar,
Metáfora do seio materno de onde saímos.
É tempo de regressar ao nosso quarto,
Imagem da toca onde retemperamos forças.
É tempo de voltar ao essencial,
Com a agenda esvaziada
De cumprir os sempre urgentes recados de moços.
Com vagar para apreciar o valor das pequenas coisas
Que de repente se tornaram grandes para nós e para os outros.
É tempo de parar, de meditar, de contemplar
Para dar descanso ao planeta Terra,
Nossa casa comum a requerer os nossos cuidados,
Que precisava há muito destas férias de nós
Agora surpreendentemente mais sossegados!
É tempo para repensar o rumo,
Com tempo para dar tempo
Para acertar da vida o prumo
Que permite um novo acerto e avançar.
Tempo, esse grande escultor
Que agora nos esculpe na espera de dias menos sós,
Menos sombrios e menos tenebrosos,
Em que multiplicaremos os beijos e os abraços
Por aqueles que, enfim, percebemos,
Quão para nós são mais valiosos!

Medina de Gouveia (pseudónimo) | Associado do IEAC-GO

# 5

A pulsão

À história acrescentou-se o mito. Foram tantas as capas que Drácon sufocou. Quando, no século VII antes da era cristã, assumiu, em Atenas, o poder extraordinário para contrariar os conflitos, o aristocrata atuou com rigor extremo. Eram tempos de mudança. No dealbar de novas relações sociais, o comércio impunha-se, a hegemonia dos proprietários da terra era posta em causa, setores desfavorecidos e na miséria insurgiam-se contra a escravidão por dívidas acumuladas.

Drácon elaborou um quadro legal implacável, impôs o poder administrativo sobre o direito individual, decretou a pena de morte ou o exílio, condenou o devedor insolvente à perda de liberdade, regulou o direito familiar com a obediência aos mais velhos e antecipou um direito penal que diferenciaria tipos de homicídio e legítima defesa. Em tirania, aplicou medidas severas para reorganizar a polis, muitas atenuadas ou abolidas mais tarde pelo “sábio” legislador Sólon, que regularia as questões económicas, aboliria a escravatura por dívidas e alargaria os direitos de participação política à aristocracia mais influente.

Um dos mitos indexados à história de Drácon conta que, durante uma ida ao teatro, foi calorosamente saudado pelo povo com uma chuva de capas e outros adornos da indumentária típica da época, de tal maneira que sufocou e morreu, sem conseguir desembaraçar-se de tanto peso.

Preocupado em sintonizar a ação política com a filosofia, desenvolvendo uma ética republicana mais democrática, Aristóteles criticaria, 300 anos depois, o papel de Drácon, alegando que este se limitou a passar para lei escrita o carater bárbaro daquele tempo, nada acrescentando ao que eticamente se exigiria à polis.

O “código de Dracon” é ainda uma metáfora do comportamento social e político. Quando, individual e coletivamente, não damos conta do necessário, projetam-se caminhos quase messiânicos, esperando que uma pessoa, um governo ou uma instituição faça o que o coletivo julga não ser capaz de fazer.

Temos já na sabedoria clássica um aviso. Sabe-se que a ordem conseguida pelo tirano Drácon foi temporária. A força, por mais útil que pareça ao início, é ineficaz e apenas uma expressão de violência, se, maioritária e livremente, a comunidade não aderir em consciência e corresponsavelmente. Há poderes demasiados pesados para serem usados de forma draconiana.

Em família, no trabalho, em sociedade, a pulsão draconiana é grande quando percecionamos o limite e o medo nos assola. Não se vislumbrando competências para uma liderança inteligente e racional, destaca-se a tendência para delegar na estratégia da força. Um tempo de emergência social testa, por isso, as sociedades democráticas.

Pragmaticamente, a força pode e deve ser usada para reagir a franjas de comportamentos inadequados, mas sufocaremos se tiver de ser aplicada de forma generalizada, revelando uma incapacidade coletiva.

Joaquim Franco | Jornalista, investigador, autor, associado e vogal da Direção do IEAC-GO

Texto publicado originalmente no dia 21 de março, em pontosj.pt

# 6

Os dias eram assim

Roubo o título a um verso de uma canção de Ivan Lins que, na voz da ímpar Elis Regina, tenho ouvido bastante nestes últimos dias. “Aos nossos filhos” é um pedido de desculpas de uma mãe (ou de um pai) aos seus filhos por tudo o que lhes não deu – e é, nesse sentido, tristemente autobiográfica pois Elis morreu quando os seus três filhos eram ainda crianças. Mas é também uma certeira descrição deste tempo inverosímil que vivemos: “Perdoem a falta de abraço; Perdoem a falta de espaço; Perdoem por tantos perigos; Perdoem a falta de abrigo; Perdoem a falta de amigos; Perdoem a falta de folhas; Perdoem a falta de ar; Perdoem a falta de escolha”.

Talvez num futuro não muito distante o título desta crónica seja o título do capítulo da História que relata os dias em que a Humanidade se viu, sem saber muito bem como nem porquê, encurralada num beco; os dias em que muitos mostraram sentido de responsabilidade, ajudando a controlar o de outra forma incontrolável; os dias em que se multiplicou o espírito de comunidade e de solidariedade, se criaram correntes de vizinhança para apoiar os mais frágeis, se orientaram fábricas (de café ou monofilamentos) para a produção de máscaras e viseiras. Mas também os dias em que seres humanos (?) apedrejaram ambulâncias transportando outros seres humanos só por que estes estavam infetados; os dias em que “União Europeia” voltou a revelar-se um eufemismo para um conjunto de países em que uns serão sempre uns e outros serão sempre outros; os dias em que certos líderes políticos confirmaram as piores expectativas que já se tinham deles. Sim, “os dias eram assim”.

Volto à canção: apesar do imenso sentimento de culpa, apesar da consciência da irreversibilidade dos danos que percorre os versos iniciais, termina com uma nota de esperança: “Quando brotarem as flores; Quando crescerem as matas; Quando colherem os frutos; Digam o gosto pra mim”. Quando… Acreditemos que sim.

Cristina Figueiredo | Jornalista, associada e secretária da Direção do IEAC-GO

Texto publicado originalmente no dia 27 de março, no Expresso Diário

# 7

O impacto da pandemia na prática religiosa

Em contexto católico, mais próximo da nossa paleta cultural, a pergunta tem a força da circunstância. Qual é o impacto desta pausa de semanas no culto e reunião de crentes? Esta suspensão, sine die, da eucaristia pública, atravessa o mais importante e sensível tempo litúrgico – a Quaresma, a Semana Santa e a Páscoa –, definidor da própria fé cristã. E é cada vez mais provável que Fátima, pela primeira vez, tenha de restringir ou cancelar as celebrações do 13 de Maio no santuário.

Culturalmente enquadrada, a vivência religiosa começa numa adesão pessoal e expressa-se sobretudo em comunidade, no ombro-a-ombro de famílias próximas e alargadas, com códigos de pertença que desenham partilha e relações, sem exclusão de outras dimensões mais individuais e espirituais, com a experiência de isolamento e recolhimento místico que moldou o próprio pensamento da Igreja.

Em meros encontros orantes, qualquer que seja a religião ou comunidade, prevalece este paradigma: há um corpo crente coletivo. Como pêndulo, a celebração comunitária semanal explica e reforça as redes de fé. Prevalece até em cenários de guerra e sob risco de vida.

Com o dealbar dos meios de comunicação social, passou a ser possível acompanhar, à distância, uma cerimónia religiosa. No caso católico, em que a celebração eucarística e da palavra, vulgarmente designada como “missa”, significa a presença mística de Deus pelo pão consagrado no altar, há comunidades que, depois, se organizam e vão entregar a hóstia ao domicílio.

Mas a situação vivida neste momento, com as celebrações religiosas à porta fechada e exclusivas para os ministros de culto, tem outro enquadramento: os crentes mais participativos compreenderam e até incentivaram a situação. No domingo que antecedeu a recomendação da Conferência Episcopal era já visível uma redução de pessoas nas assembleias. Havia uma consciência do perigo e da necessidade.

Não se trata de uma impossibilidade em perseguição religiosa ou na falta de um padre, de um pastor, de um imã, de um rabino. Foram as lideranças religiosas que assim entenderam, e o povo, genericamente, concordou. Só depois foi declarado o estado de emergência que, num dos seus artigos, proíbe o culto religioso público.

No passado bíblico, e até há pouco tempo, o leproso era proscrito e afastado. As narrativas evangélicas contam que Jesus nunca temeu aproximar-se dos doentes, tendo-os como gente do seu “reino”. Como lembra a historiadora Rita Sampaio da Nóvoa[1], na “diacronia da convivência humana com a possibilidade de se ser contagiado ou de contagiar houve ruturas e permanências” ao longo dos tempos. Há 100 anos, para não recuarmos muito no calendário, a gripe espanhola não cessou inicialmente as missas, nem outras atividades económicas, coletivas e sociais, o que veio a revelar-se trágico. Tarde demais, as autoridades locais foram fechando compulsivamente os templos, oferecidos pela Igreja ou requisitados pelo Estado para serem enfermarias. Num século, aprofundou-se o conhecimento científico, as estruturas políticas, sociais e sanitárias, a secularização, a consciência do indivíduo, o direito universal…

A decisão de suspender a presença do povo nas cerimónias, promovendo o afastamento profilático dos crentes – grande parte, seniores em grupo de risco – tem um peso simbólico e inédito, cujas consequências são ainda difíceis de antecipar. Em primeiro lugar, é o sinal evidente de um novo tempo: a razão afirma-se na vivência de fé, comprovando que fé e razão não são necessariamente opostas. O discernimento, tão valorizado e promovido pelo atual Papa, resulta numa evidente conjugação de valores, que se encontram no denominador comum de uma cidadania responsável, legitimada na defesa da vida e na ética do cuidado. Sendo fundamental e identitária, a celebração pública, dependendo do contexto, pode não ser necessariamente essencial quando, em consciência, outros valores despertam. Sem negar a relevância mística no culto comunitário, admite-se pragmaticamente que é mais importante o valor supremo da vida humana. Se é um vírus que afasta os fiéis de um momento que os define enquanto comunidade religiosa, é a responsabilidade individual e coletiva que cuida.

Em 1998, na encíclica Fé e Razão, o papa João Paulo II fazia aos sacerdotes um apelo com largo espectro filosófico: “A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem”.

Tem sido interessante o debate entre católicos. O que acontecerá depois, quando as portas dos templos voltarem a abrir-se? As pessoas vão voltar ou desabituaram-se?

Os mais clericais e ritualistas entendem que as igrejas nunca deviam ter fechado. Outros, sem rejeitar a importância do encontro dominical, vêem uma oportunidade para a desclericalização, retomando a Igreja doméstica, reavivando a leitura e partilha familiar da Bíblia, à semelhança de outros cristãos.

Em qualquer dos casos, estaremos diante de um teste à resiliência comunitária, que tem de mostrar ser mais do que apenas um espaço de aproximação semanal ao altar para cumprir uma tradição. As correntes de incentivo orante multiplicam-se, sobretudo nas redes sociais, mas terá de haver um impacto real e socialmente útil na vida das pessoas, ou o risco de erosão acentua-se.

Como se reconfigura nestes dias o sentimento de pertença à respetiva comunidade? Os padres limitar-se-ão a mobilizar meios para estar on-line e transmitir a missa pela internet?

A maioria dos fiéis pertence ao grupo de risco que está agora isolado em casa, amedrontado com a ameaça real. O que pensará se, no final da tormenta, tiver experimentado o abandono por parte da sua comunidade de fé?

Não se sabe ainda quanto tempo vai demorar este interregno. Nem se a normalidade voltará segura, uma vez que se admite a hipótese de uma segunda vaga pandémica no próximo inverno. E se, depois da Quaresma e da Páscoa, vier uma provação semelhante em Advento e Natal?

Também para a vivência religiosa, há um antes e um depois da pandemia de 2020.

Joaquim Franco | Jornalista, investigador, autor, associado e vogal da Direção do IEAC-GO

Texto publicado originalmente no dia 25 de março, em sicnoticias.pt

# 8

Em tempo de Vésperas

Pax!

Na Liturgia da Igreja, as Vésperas estão ligadas com a tarde que concluiu o dia e inicia a noite «a fim de agradecermos tudo quanto neste dia nos foi dado e ainda o bem que nós próprios tenhamos feito» e recorda-se a obra da redenção na liberdade e na partilha.

O título desta mensagem inspira-se ainda no sugestivo e profético livro, Tempo de Vésperas (1971), do nosso estimado amigo Prof. Adriano Moreira. Com efeito, «Na véspera de chegarmos. (…). Mergulhando as mãos no tempo verdadeiro que é o nosso. Cheio de promessas para o dia. Que será dos outros. Filhos das nossas esperas sem fim. Do nosso vazio. Da nossa angústia. Da nossa esperança. Do nosso tempo de vésperas».

Em tempo de vésperas de sairmos do túnel, que atravessamos juntos e nos confinou por causa da pandemia do Covid 19, acelera a mudança epocal? Será que a esta pandemia viral se seguirá uma pandemia de solidariedade e fraternidade na construção do Bem Comum e na promoção e defesa da dignidade da Pessoa Humana? E reforçam-se os valores fundamentais da família, da educação, da sobriedade, da comunidade e da ecologia?

«Está-se a experimentar uma condição nova de tempo suspenso. (…) severa educação à poupança e ao respeito do ambiente, severa porque paga com graves lutos. (…) Creio que os contactos com o círculo das pessoas importantes se intensificaram. (…) A sociabilidade foi reforçada» (Erri de Lucca).

Nestes tempos duríssimos de crise, os transmontanos souberam e sabem dar o seu melhor! Podemos aproveitar esta adversidade para crescer pessoal, familiar e comunitariamente.

  1. O carinho no acompanhamento aos nossos mais velhos

 Em tempos da pandemia do Covid 19, os mais velhos são os mais vulneráveis, tanto em suas casas como nos lares de idosos. Muitos confidenciaram que o maior medo era o de ficarem infetados e de se sentirem sós e abandonados nos hospitais, nas casas ou nos lares.

No pós-pandemia, a linha da frente vai transferir-se dos hospitais para a IPSS, que não podem ser vistas como unidades de saúde e onde já se trava uma dura batalha no cuidado com os nossos queridos mais velhos. São cada vez mais evidentes as dificuldades: financeiras, contratação de colaboradores com perfil ajustado às necessidades e outras. Os desafios e as exigências tornam-se cada vez maiores a precisar de maior apoio, investimento e aumento das comparticipações do Estado. O Governo deverá repensar e mudar a atitude, valorizando o setor social e solidário, garantindo condições de sustentabilidade às IPSS, que são as primeiras a garantir a salvaguarda de uma sociedade mais justa e fraterna.

É muito vigorosa a reflexão de uma pastora batista italiana: «Os mais velhos são os primeiros a serem atingidos pelo vírus e, ousamos denunciá-lo, os menos protegidos na doença. Diante de um sistema sanitário em declive, as primeiras vítimas foram os anciãos: não internados oportunamente ou não apoiados em tempo nos lares de idosos que se tornaram lugares de morte. E isto porque, mais ou menos explicitamente, vivemos num tempo que julga a vida de um ancião menos preciosa que a vida de um jovem. É significativo o caso de um velho Padre que renuncia ao ventilador em favor de um rapaz: gesto generoso de martírio. Mas perguntamo-nos: porque é que pusemos um homem em condições de ter de decidir entre a sua vida e a vida de um rapaz? Se a nossa sociedade pensa que os anciãos valham pouco, são poucos os trocos do tesouro da vida, Jesus não parece pensar assim. E não é preciso muito para compreender: quando morre um ancião, morre a memória, a relação com as gerações. Não morre um ancião, mas uma pessoa, um mundo que deixa um vazio nos laços criados. Uma sociedade que não sabe reconhecer a importância dos anciãos é uma sociedade destinada a adoecer de eficiência, produção, hipertensão» (Lidia Maggi).

Na Igreja em oração, ao lembrarmos a todos, lembramos especialmente as pessoas mais velhas e as mais vulneráveis. Os mais velhos são as nossas raízes e como diz um provérbio africano: «as nossas verdadeiras bibliotecas». Que, pela sua infinita misericórdia, o Senhor venha em vosso auxílio com a graça do Espírito Santo.

  1. A Liturgia faz a comunidade e a comunidade faz a Liturgia

 Estamos em tempo de vésperas para o encontro real e progressivo da celebração comunitária da fé da Igreja.

A terceira e, esperamos, última etapa do estado de emergência nacional, custa mais, mas é necessário para o Bem Comum. Este caminho juntos abre-nos para o IV Domingo da Páscoa, o primeiro domingo de maio, dia da Mãe e dia mundial de oração pelas vocações. Para este dia o Papa Francisco escolheu «quatro palavras-chave – tribulação, gratidão, coragem e louvor – para agradecer aos sacerdotes e apoiar o seu ministério. Acho que, neste 57º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, poder-se-iam retomar aquelas palavras e dirigi-las a todo o Povo de Deus, tendo como pano de fundo o texto evangélico que nos conta a experiência singular que sobreveio a Jesus e a Pedro durante uma noite de tempestade no lago de Tiberíades (cf. Mt 14, 22-33)».

É verdade, como dizem alguns: “todos os sacramentos são ritos”. Sim, mas nem todos os ritos são sacramentos. Por isso nós precisamos dos ritos sacramentais para viver em comunidade e na pertença a Cristo e à Igreja. «O que é de Cristo é mais nosso do que aquilo que é de nós» (Nicolau Cabasilas).

Muitas e criativas foram as formas digitais da celebração da Páscoa anual e semanal. Saudamos e felicitamos os nossos Párocos e as Unidades pastorais pelo seu testemunho de unidade e nobre simplicidade na beleza, fidelidade e dignidade das celebrações. Uma Páscoa inaudita e sentida na cruz florida de Jesus Cristo nossa Páscoa e nossa Paz. Será que tudo nos converge no caminho da conversão: mudar o olhar? Que passos para uma vida nova na Igreja?

Em tempo de vésperas, o Papa Francisco, na homilia da Eucaristia de sexta-feira da Oitava da Páscoa disse-o claramente: «Uma familiaridade sem comunidade, sem Igreja, sem os sacramentos, é perigosa, pode tornar-se uma familiaridade gnóstica, separada do povo de Deus. Nesta pandemia, comunica-se através dos media, mas não estamos juntos como acontece com esta Missa» (…). «Esta não é a Igreja. É a Igreja de uma situação difícil, que o Senhor permite, mas o ideal da Igreja é sempre com o povo e com os sacramentos. Sempre».

Em tempo de Vésperas, enquanto esperamos as próximas orientações da Conferência Episcopal Portuguesa, «com a retomada possível e gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia e outras manifestações cultuais» abram-se as igrejas, onde possível, que estiveram fechadas ou desprovidas de acolhimento e que impediram o encontro com “Jesus escondido” (S. Francisco Marto, in Plano Pastoral 2019/2020).

Cordialmente em Cristo nossa Páscoa e nossa Paz.

 Bragança, 22 de abril de 2020

José Cordeiro | Bispo de Bragança-Miranda e Presidente do Conselho Consultivo do IEAC-GO

# 9

Oração, cidadania e solidariedade contra a pandemia

A iniciativa ecuménica do Papa, no dia 25 de março, teve um alcance que vai além da pandemia do momento. Francisco convidou os cristãos de todo o mundo para, à mesma hora, recitarem o Pai-Nosso, oração fundacional no cristianismo.

“Rezamos pelos doentes e suas famílias, pelos profissionais de saúde e quantos os ajudam, pelas autoridades, as forças da ordem e os voluntários, pelos ministros das comunidades”, explicou o Papa, antes de dar início à oração.

Cristãos protestantes e ortodoxos associaram-se ao gesto, reforçando o impulso e as iniciativas ecuménicas dos últimos anos.

Francisco deu, com esta ação, amplitude ao papel das religiões e, neste caso, das diferentes confissões cristãs. Há uma construção a fazer, nos gestos do quotidiano e nos momentos mais difíceis, que requer um retorno ao essencial. E aumenta a dramaticidade do isolamento entre os cristãos, impedidos de celebrar, em comunidade, o principal tempo litúrgico do calendário.

As sextas-feiras de Quaresma marcam o ritmo celebrante da aproximação à Páscoa. O jejum, que a tradição sugere, tem este ano um inesperado significado e Francisco, que é bispo de Roma, reage ao momento também com gestos simbólicos: no dia 27 de março, o Papa voltou a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será, seguramente, uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

No final, o Papa deu a bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e ao mundo), reservada para ocasiões muito especiais, como a Páscoa e o Natal.

Em Fátima, símbolo da devoção mariana no catolicismo, uma cerimónia de Consagração por causa da pandemia, realizada também nessa quarta-feira, passou quase despercebida na comunicação social.

O cenário terá transportado os crentes para um misto de graça e angústia, pela voz embargada do cardeal António Marto, pela sobriedade da cerimónia no canto e nas palavras.

Sem multidões nem emoções transbordantes, amplamente visíveis se fosse uma cerimónia pública, Fátima mostrou-se necessariamente recolhida numa basílica vazia, com o recinto vazio ao anoitecer e os celebrantes afastados. Um contraste sem paralelo.

Os bispos portugueses, a quem se associaram os bispos espanhóis e de outros 20 países, consagraram-se ao “sagrado coração de Jesus” e ao “imaculado coração de Maria”, mantendo a tradição antiga das petições espirituais em tempos de aflição comunitária.

Neste quadro sóbrio, quase íntimo, ajoelhado diante da imagem da Senhora de Fátima e da Cruz, o cardeal Marto não conseguiu conter a emoção. Numa “singular hora de sofrimento”, como repetiu na fórmula da consagração, pediu inspiração para os governantes, cura para os doentes, amparo para os velhos e vulneráveis, conforto para médicos, enfermeiros e todo o pessoal em ação, profissionais ou voluntários, concluindo: “livra-nos da pandemia que nos atinge”.

Podendo ser vistas como semelhantes a gestos religiosos ancestrais e pré-cristãos, estas expressões quentes de fé podem realçar mais a piedade popular do que uma manifestação mais racional de fé: se pouco ou nada há a fazer, que o Alto tenha uma intervenção. Mas há uma frase no texto lido pelo bispo de Leiria-Fátima, como chave de leitura, que vai além da mera petição: “Reforça-nos na cidadania e na solidariedade.”

Não é comum invocar a “cidadania” numa celebração religiosa desta natureza. António Marto sintonizou a oração dos crentes com a urgência de uma atitude ativa perante expectáveis dramas familiares e sociais.

Nas narrativas evangélicas, Jesus opera no concreto da vida próxima e faz próximos os que mais precisam. Construindo a igualdade e a justiça como vivência e caminho de salvação, o “reino” é um encontro e o encontro leva ao “reino”.

Quando convocou os católicos de todo o mundo para se associarem ao momento orante desta sexta-feira, o Papa Francisco sublinhou que uma confiança incondicional na intervenção divina implica uma fé comprometida com os outros.

“Queremos responder à pandemia do vírus com a universalidade da oração”, disse, mas também “da compaixão e da ternura”, assegurando “proximidade às pessoas mais sós”.

O apelo reforça-se numa entrevista à televisão espanhola La Sexta. O Papa diz que não consegue imaginar as dificuldades pelas quais vão passar os empresários, mas defende que o despedimento de trabalhadores “não é solução” para salvar empresas. Os cristãos podiam já começar a orar pela preservação de postos de trabalho e por empresários e governantes inspirados.

Joaquim Franco | Jornalista, investigador, autor, associado e vogal da Direção do IEAC-GO

Texto publicado originalmente no dia 26 de março, em setemargens.com

# 10

O mal e o sentido do mundo a partir de Santo Agostinho

José da Silva Rosa | Presidente da Faculdade de Artes e Letras da UBI, associado do IEAC-GO

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